Tribos & Tributos
Quadrinhos, RPG, cinema, idéias em geral.

Adeus Vertigo, olá Luluzinha

07:23
Faz mais ou menos uns cinco meses que a Pixel Media (editora cuja dona era a Ediouro, e que eu defendia com unhas e dentes diante de qualquer crítica – é, errar é humano) deixou todos os leitores e fãs do selo Vertigo sem saber o que fazer, diante do cancelamento das revistas Pixel Magazine e Fábulas Pixel. E isso porque só depois desses CINCO MESES é que os caras tomaram coragem de vir à público dizer que não iam mais publicá-las, e tome especulação nesse meio-tempo – especialmente na comunidade oficial da editora no orkut (envolvendo uma tal de “Renata” que supostamente trabalhava na Ediouro e disse que eles estavam estudando o que iam fazer com as revistas, mas ninguém falava em cancelamento).

Quando questionados sobre os motivos que os levaram a tomar uma atitude tão drástica, os executivos da Ediouro argumentaram que o problema foi a falta de lucro a curto prazo, como se a linha Vertigo fosse um estrondoso sucesso de vendas no Brasil, em vez de ser publicada em “doses homeopáticas” desde 1995. Mas quem disse que as coisas nunca podem piorar?


Eis que eu descubro, lendo algumas notícias na internet, que a mesma Pixel Media canceladora de títulos adultos vai lançar uma versão “teen” da Luluzinha, na esteira do sucesso da Turma da Mônica Jovem (e essa aqui merece um texto à parte). Agora me digam: o que diabos esses executivos tem na cabeça?

Nem vou me dar ao trabalho de falar o que todo mundo já sabe sobre as revistas da Vertigo; vamos nos ater à estupidez de tentar fazer uma versão “jovem” da Luluzinha. Não questiono a importância da personagem pros quadrinhos, mas sejamos francos: no atual cenário da publicação de HQ’s no Brasil, quem é a Luluzinha? A décima-terceira personagem depois de ninguém, nem mais nem menos. Embora pareça que ela pode passar pelo mesmo processo que a Mônica, a Ediouro não poderia dar um tiro mais certeiro no próprio pé.

Isso porque, diferente da senhorita Lulu e Cia., a Mônica nunca saiu de circulação. A intenção do Maurício de Sousa era justamente pegar esse pessoal que deixa a infância e, junto com ela, o hábito de ler os gibis da Turma da Mônica. O uso do mangá como estética (e não como estilo, como muitos pensam) serviu pra pegar também o pessoal que é fã desse estilo e que provavelmente nunca tinha lido nada da baixinha dentuça. Resultado: sucesso imediato. Diante desse cenário, nem mesmo o Aranha tem chance (e não falo do Aracnídeo da Marvel, e sim da “identidade secreta” do Bolinha).

Mas é claro que eles têm suas armas secretas. Uma delas é a aparição da Pitty (!), num show aberto pela banda do Bolinha (!!) – ou apenas Bola, já que ele ficou mais magro. Outra coisa que também apareceu foi um blog onde a protagonista bota uns pensamentos, alguns deles durante a revista (e pra serem modernosos, eles até tem twitter). Agora, sabe o que eu acho?

Que esse pessoal da Pixel não tem o menor medo de passar ridículo. Cara, é a LULUZINHA! Pergunta pra algum desses moleques dessa geração se ele sabe quem ela é. Daí vêm um bando de executivos engravatados que acreditam saber o que o público deles quer e declaram que “essa é a Luluzinha pras novas gerações”. É claro que falando isso fica parecendo que sou um desses nostálgicos que gostaria que as pinturas ainda fossem todas feitas à óleo, que abomina CD’s (mp3 nem pensar) e coisas desse tipo. Creia, não é o caso. O que me tira do sério é o descaso com o material de cunho “clássico”, com a desculpa que ele deve ser adaptado e atualizado àqueles que estão chegando. Até parece.

Se tem algo de bom nesse projeto (e ênfase no SE, senhoras e senhores), é o fato que pelo menos a Pixel parece ter um projeto mais definido que a Panini quando começou a Turma da Mônica Jovem. Por “projeto mais definido” entenda-se diálogos dignos de Malhação.

Definitivamente, um destino indigno para a personagem. Seu (ou sua) criadora certamente está se revirando no túmulo.
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O RPG é inocente!

05:38

Segue abaixo um texto de Marcelo Del Debbio, comentando as infelizes associações a crimes que algumas pessoas insistem em fazer com o RPG.



O RPG não influenciou NENHUM crime no Brasil

Peço a todos os jogadores de RPG que copiem este texto em seus blogs, sites, flogs, comunidades do orkut e onde mais puderem, pois não seremos mais usados como bodes expiatórios por delegados ineficazes, pastores evangélicos, vereadores oportunistas e jornalistas incompetentes.

O texto abaixo dá nome aos bois: às vítimas, aos assassinos e aos oportunistas que usaram os crimes para se promoverem. Chega de notícias distorcidas, incompletas e tendenciosas.

TERESÓPOLIS

Em 14 e 20 de Novembro de 2000, na cidade de Teresópolis (RJ), duas garotas de 14 (Iara dos Santos Silva) e 17 (Fernanda Venâncio Ramos) anos foram estupradas, torturadas e estranguladas com um intervalo de seis dias entre os crimes.

Sônia Ramos, 42, madrasta de Fernanda, a segunda vítima, levantou a suspeita de que as atrocidades pudessem estar ligadas ao jogo porque sua filha (a VÍTIMA, que NÃO jogava RPG) andava na companhia de outros garotos que jogavam GURPS e Vampiro (sua alegação se baseou no fato de que sua filha andava as voltas “com pessoas que se fantasiavam de vampiros”).

Inclusive a polícia chegou a prender injustamente um jogador de RPG, que não vou falar o nome porque o coitado era inocente e não merece ter seu nome publicado, mas que passou quatro dias na cadeia por causa deste absurdo. O verdadeiro assassino das garotas foi preso após o 5o crime, depois da prisão do RPGista; era um cigano e NUNCA sequer passou perto de um livro de RPG.

A imprensa irresponsável, assim como no caso famoso da “Escolinha Base”, foi muito rápida em divulgar versões fantasiosas sobre o “jogo da morte”, mas NUNCA publicou uma linha sequer se desculpando com os 400.000 jogadores de RPG que foram ofendidos em sua moral e prejudicados diante da sociedade.

OURO PRETO

No dia 10 de outubro de 2001, Aline Silveira Soares viajou do Espírito Santo com sua prima e alguns colegas para Ouro Preto para participar da “Festa do Doze”, que é uma espécie de Carnaval fora de hora entre as faculdades da região, com R$40,00 e a roupa do corpo para passar três dias.

Segundo o laudo, Aline consumiu drogas durante o dia anterior ao de sua morte. Esta informação foi confirmada por diversas testemunhas que também participavam da festa, em Ouro Preto (testemunhas que foram solenemente ignoradas pelo delegado Adauto Corrêa após as investigações tomarem o rumo circence). Aline não tinha dinheiro e acreditou que conseguiria fugir do traficante sem pagar pela droga que consumiu, mas no dia de sua morte (14 de Outubro de 2001), foi abordada pelo criminoso no caminho de volta para a república onde estava hospedada (o cemitério fica exatamente no meio do trajeto entre o local da festa e a república). Testemunhas (que também foram ignoradas no inquérito oficial) disseram ter visto Aline conversar com um conhecido traficante da cidade na porta do cemitério algumas horas antes de sua morte.

De acordo com especialistas em crimes relacionados a drogas, Aline provavelmente teria se oferecido para ter relações sexuais com o traficante para pagar a dívida, pois as roupas da garota foram encontradas “cuidadosamente dobradas e dispostas ao lado do local do crime, sem nenhum indício de violência ou de coerção”. Aline tomou o cuidado de deixar suas sobre uma das lápides, dobradas com a jaqueta por baixo, para que não sujassem.

Ainda segundo o laudo oficial da perícia técnica, durante a primeira facada que Aline recebeu, o corpo estava na posição acocorada, popularmente conhecida como “de quatro”. Segundo especialistas em crimes de estupro, o traficante provavelmente teria tentado obrigar Aline a realizar sexo anal, que possivelmente foi rejeitado pela garota, resultando no primeiro golpe com a faca. O traficante, tendo ferido Aline seriamente, não viu alternativa a não ser terminar de matá-la. Para disfarçar, o assassino colocou o corpo de Aline em posição deitada sobre a lápide (fotos da perícia e rastros de sangue, pode-se atestar que o corpo foi movido APÓS a sua morte) para tentar atrapalhar as investigações.

Quando o corpo foi encontrado, os policiais começaram as investigações pelos locais em que Aline se hospedou e em uma das repúblicas foram encontrados alguns livros de RPG, que o delegado, evangélico confesso, classificou como “material satanista”. A partir disto, um vereador oportunista chamado Bentinho Duarte (sem partido) viu nisso uma chance de se promover realizando terrorismo psicológico e, junto com o Promotor Fernando Martins (conhecido por ter tentado proibir a distribuições de jogos como Duke Nuken e Carmagedon), moveu ação contra as empresas Devir Livraria e Daemon editora tentando a proibição de 3 títulos (Vampiro: a Máscara, Gurps Illuminati e Demônios: a Divina Comédia).

Resumindo: um crime que não teve nada a ver com RPG, mas sim com DÍVIDA DE DROGAS resultou até agora na prisão de 4 garotos injustamente (que NÃO são jogadores de RPG, fato comprovado pela mãe da vítima em depoimento ao vivo na rede Bandeirantes de TV) e um completo show de aberrações e absurdos na mídia.

GUARAPARI

Polícia Civil do Espírito Santo prendeu, na noite de 12 de Maio de 2005, dois acusados pelo assassinato do aposentado Douglas Augusto Guedes, da mulher dele, a corretora de imóveis Heloísa Helena Andrade Guedes, e do filho do casal Tiago Guedes, em Guarapari. Os corpos dos três foram encontrados amarrados e deitados em camas no dia 5 de maio. Na mesma data, eles foram sepultados.

O delegado da Divisão de Homicídios de Guarapari, Alexandre Linconl, evangélico, disse ao Portal Terra que os assassinos MAYDERSON DE VARGAS MENDES, 21 anos, e RONALD RIBEIRO RODRIGUES, 22, confessaram que eles mataram a família motivados pelo jogo, mas essa “confissão” não ocorreu imediatamente após o crime.

O crime que Mayderson e Ronald cometeram é o de LATROCÍNIO QUALIFICADO E PREMEDITADO, ou seja, mataram para roubar de uma maneira cruel e sem dar chance de defesa às vítimas, com premeditação. Esse é um crime hediondo, sendo julgado e condenado diretamente por um juiz criminal. Ambos os acusados já tinham ficha criminal (ambos estão respondendo processo por Porte ilegal de Arma).

O que o advogado de defesa da dupla estava fazendo era alegar que eles cometeram o crime influenciado pelo jogo e, com essa ação, tentar reverter o crime para Homicídio Simples, baseado no tal jogo que ninguém sabe o que é. Com isso, os assassinos iriam para um júri popular, que poderia ser muito bem influenciado por todo esse novo circo que a mídia sensacionalista armou e, jogando a culpa em cima do RPG, poderia até inocentar os “pobres coitadinhos vítimas do jogo” Mayderson e Ronald…

O que tem de ficar bem claro é o seguinte: os criminosos entraram na casa, apontaram armas para Tiago e sua família, doparam a família sob a mira do revólver, levaram o garoto até o caixa eletrônico onde roubaram R$ 4.000,00 de sua poupança e depois executaram friamente a família com tiros na cabeça, para não serem reconhecidos. A história do “RPG” só apareceu dois dias depois que os assassinos foram capturados pela polícia, sob orientação do advogado de defesa da dupla.

É bom lembrar, já que a mídia “esqueceu”, que, graças à intervenção da Daemon Editora e da conversa de Marcelo Del Debbio, escritor especialista em Role Playing Games, com o delegado de Guarapari ao vivo em uma entrevista na Rede Bandeirantes de TV, o advogado de defesa da dupla abandonou o caso, deixando os dois criminosos sem advogado à espera de um defensor público.

Com estes textos, podemos começar a nos defender dos três falsos “crimes do RPG”. Já está na hora destas informações serem passadas para jornalistas sérios que queiram nos ajudar a fazer a verdade aparecer.



Acho que isso é tudo, pessoal.

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E eu fiz meu Twitter...

16:51
...embora ainda não tenha visto algo de útil naquilo.

Não me entendam mal: não fiquei quase dois meses sem fazer novos posts pra chegar aqui e me fazer de polêmico (afinal, qualquer coisa que desafia o senso comum é polêmica e, convenhamos, o Twitter é a mais nova modinha). As pessoas que me conhecem sabem que sou meio avesso à novas tecnologias – vide meu desprezo por telefones celulares e os iPods da vida. O que não significa que essas coisas não sejam úteis: o celular é um meio de comunicação, abdicar dele hoje é um luxo para poucos; já lunáticos como eu que tem um radinho na cabeça tocando o que quer e bem entende não precisam de mp3 ou iPod. O lance aqui é justamente a serventia do Twitter. Pra que ele serve, afinal de contas?

Não me lembro onde foi que eu li, mas já teve gente falando que o Twitter vai substituir os blogs. Como é que 140 caracteres por atualização vão fazer isso? Se alguém quiser me explicar é mais que bem-vindo (a). Embora esteja correndo o risco de ser reacionário ou coisa parecida, o que eu quero perguntar é o seguinte: afinal de contas, é ou não muito barulho por nada?

Acho que convém dizer que esses dois primeiros parágrafos foram escritos antes de eu passar quase uma hora só explorando os recursos que essa ferramenta tem a oferecer. De antemão, posso afirmar que o Twitter se mostra a salvação da lavoura pro pessoal que acessa o orkut ou o MSN no trabalho – mas só por ora; tão logo ele desenvolva seu potencial viciante, será banido dos ambientes corporativos.

Claro que há outras vantagens – especialmente no âmbito da divulgação e publicidade. Mas, a meu ver, há pouco além disso. Pra mim, ficou a impressão que o Twitter nada mais é do que uma metáfora dos nossos dias, onde tudo é resumido e reduzido. Onde todo um universo de possibilidades comunicativas fica reduzido a 140 caracteres (acentos não contabilizados). E à moda dele, eu termino por aqui.

Pra quem quiser me seguir... @cleristoncosta
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Top 10

22:36
Há alguns dias meu amigo Marcelo me sugeriu um desafio: fazer um post mostrando quais os discos mais importantes da minha coleção. De cara esbarrei num problema, já que desde sempre fui um cara sem um tostão no bolso. Isso significa que eu infelizmente não cheguei a ter a maioria desses álbuns que listei (alguns tiveram mais sorte e pularam da fita-cassete para o mp3).

Resolvi então fazer um post com os 10 discos que marcaram a minha vida. O legal é que de início pensei que 10 era muito, e em menos de 5 minutos a coisa deringolou para os 25 ou 30... não, só 10 já tá bom. E antes que alguém pergunte, eles estão dispostos em ordem aleatória.


Engenheiros do Hawaii – Simples de Coração (1995)
Uma coisa que
sempre achei legal nos Engenheiros é esse lance de querer soar datado, coisa velha mesmo. Mas não foi esse o foco em Simples de Coração; nessa época o Augusto Licks tinha saído da banda, desfazendo a melhor formação dos Engenheiros de todos os tempos. Mas a ironia é que foi nesse momento que saiu talvez o melhor álbum que o Gessinger já fez. Pena que ele honrou o apelido “cavalo” e o quinteto que gravou esse álbum se desfez em 1996. De hit, ficou “A Promessa”.
Favoritas: “A Perigo”, “Simples de Coração”, “O Castelo dos Destinos Cruzados”.

Paralamas do Sucesso – Hey Na Na (1998)
É aqui que
meu gosto por álbuns desconhecidos fica mais acentuado. Gostei muito de Hey Na Na porque é autocontido, simples e nem um pouco ambicioso. Só que “Ela Disse Adeus” é ótima, e o clipe de “Depois da Queda o Coice” é dos mais legais que eu já vi. Mas o mais importante pra mim é que esse foi o primeiro CD dos Paralamas que eu escutei; depois saí buscando tudo quanto foi LP e cassete pra recuperar o tempo perdido. Não sei se é o meu favorito, mas certamente é um dos mais importantes.
Favoritas: “Por Sempre Andar”, “O Trem da Juventude”, “Ela Disse Adeus”.

Legião Urbana – O Descobrimento do Brasil (1993)
Sempre achei o primeiro álbum da Legião o melhor de todos. Mas foi Descobrimento que fez minha cabeça por anos e anos. Talvez porque foi nessa época que eu realmente comecei a me interessar por música (ou talvez porque eles fossem líderes absolutos na categoria "música pra adolescente ouvir chorando no quarto"), mas o fato é que Legião foi minha banda favorita por muito tempo. Os riffs de “A Fonte”, a melancolia de “Love in the Afternoon”, o desapego de “Só Por Hoje”... se for falar de cada música aqui, ocuparia espaço demais.
Favoritas: “A Fonte”, “Vamos Fazer um Filme”, “Só Por Hoje”.

Capital Inicial – Atrás dos Olhos (1998)
Depois de um tempo desmantelado, o Capital voltou com todo gás nesse disco. Normalmente as pessoas só lembram do
Acústico MTV, mas sempre achei Atrás dos Olhos a obra-prima perdida do Capital. Rock básico com letras espertas e diretas, pra soar roqueiro sem ser datado. É uma pena que os caras insistem em regravar o mesmo CD ano após ano.
Favoritas: “O Mundo”, “Estranha e Linda”, “Terceiro Mundo Digital”, “Hotel Jean Genet”.

Titãs – Go Back (1988)
Esse tinha tudo pra dar errado, mas se mostrou uma das maiores surpresas do BRock. Se ignorar as microfonias e os problemas de gravação, é um excelente show ao vivo, com os Titãs em sua melhor fase. Ouvir “Bichos Escrotos” em todo seu esplendor caiu aos meus ouvidos como uma bomba de efeito moral; aturdido, não parei de ouvir o CD e assim que terminei ouvi outra vez. E outra. E outra...
Favoritas: “Bichos Escrotos”, “Lugar Nenhum”, “Go Back (Remix)”

Nirvana – In Utero (1993)
Foi com o Nirvana que eu comecei a me interessar por rock estrangeiro. Ouvia
Nevermind todo dia, direto (tocou tanto que eu tive que comprar outro CD depois), mas é em In Utero que o Nirvana finalmente alcança a maturidade musical. Além das distorções, além da voz falha e rouca de Kurt Cobain está uma banda honesta, que dá gosto de ouvir. Gosto de pensar que, se a banda existisse até hoje, era esse o tipo de rock que estariam fazendo.
Favoritas: “Serve the Servants”, “Heart-Shaped Box”, “Pennyroyal Tea”.

Angra – Holy Land (1995)
Como muitos, tive minha fase mais pesada. Apesar de até hoje gostar de som mais pesado, sempre estou tentando ampliar meus horizontes musicais. E a proposta do Angra não apenas me soou bem interessante (se bem me lembro, metal melódico. Sempre me atrapalhei com as designações desse estilo), como era bem diferente do que eu ouvia. Os agudos de André Matos incomodam bastante, mas ainda é um disco bem legal.
Favoritas: “Nothing to Say”, “Carolina IV”, “The Shaman”.

Pearl Jam – Riot Act (2002)
Talvez um dos meus dois álbuns favoritos de todos os tempos. Comecei a ouvir Pearl Jam pouco antes do lançamento desse CD, e tive a sorte de ter um amigo que era super fã da banda – tanto que ele me emprestou todos os álbuns na ordem que foram lançados, e pude acompanhar a evolução do som dos caras. Ele me soa como um peso quase contido, e acho isso ótimo. Costumo ouvi-lo quando leio Sandman (outra paixão), e por isso mesmo defino Riot Act como "música noturna".
Favoritas: o álbum todo

Alice in Chains – Dirt (1992)
Foi aqui que minha formação grunge se consolidou de uma vez. O Alice in Chains primou por acrescentar a sonoridade do heavy metal ao feijão-com-arroz básico do grunge – e o resultado final ficou muito bom. O
Dirt, em especial, também é um álbum conceitual, narrando a entrada de um sujeito no mundo das drogas. Por isso ele começa com “Them Bones”, música rápida e rasteira, e no final temos “Down in a Hole”, onde o dito cujo se encontra literalmente no fundo do poço. Fenomenal.
Favoritas: “Them Bones”, “Rain When I Die”, “Hate to Fell”, “Angry Chair”, “Would?”

Joe Satriani – The Extremist (1992)
Só depois de ouvir
The Extremist é que eu comecei a me interessar por música instrumental. Aliás, passei um bom tempo só ouvindo temas sem letra nenhuma. E o cara é um músico excelente, de mão cheia mesmo. Todo mundo conhece “War” e “Summer Song” (essa última foi a música de fundo das atrações do Video Show por anos e anos) mas, acreditem, tem muito mais que vale a pena. Mas como conseguir CDs de Satriani sempre foi difícil, esse foi o único que ouvi até hoje...
Favoritas: “Friends”, “The Extremist”, “Why”

E você? Qual é o seu “top 10”?
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Watchmen - o Filme

15:02

Adaptações sempre são complicadas. Não importa o quanto se tente, sempre tem algo que fica de fora – o que no final das contas é bem lógico; trata-se de uma adaptação, não de uma transposição literal de uma mídia para outra, o que é na maioria das vezes impossível. Acrescente a isso que a obra em questão é querida por milhares de fãs no mundo inteiro e está feita a balbúrdia. Quando se trata daquela que talvez é a mais complexa maxi-série de todos os tempos, multiplique algumas dezenas de vezes o receio desses fãs. Fazer um filme de Watchmen para o cinema é literalmente mexer num vespeiro.

Vou deixar uma coisa bem clara: como fã da história (li nove vezes, e comecei hoje a décima releitura), fiquei com bastante medo do que iria para as telas de cinema. As pessoas que me conhecem sabem que a frase “eu ainda tenho medo desse filme” foi repetida por mim incontáveis vezes. Em vez de tentar assistir sem levar em consideração o quadrinho que inspirou a película (o que fatalmente se mostraria impossível), livrei minha mente de preconceitos e tentei me divertir assistindo o filme.

É com muita satisfação que afirmo: Watchmen é um bom filme. Não é perfeito, tem falhas de roteiro, uma ou outra coisa que incomoda, um final que pra mim foi mal executado. Ainda assim, é bom. Porque é seguramente o mais próximo dos quadrinhos que alguém poderia chegar. Lembra do que eu disse sobre adaptações lá no primeiro parágrafo? Pois é. Por mais que quisesse, Zack Snyder não poderia levar o gibi pro cinema, então fez o que pôde. E o resultado é satisfatório.


Houve liberdades com relação aos uniformes dos protagonistas, mas isso é detalhe perto da fidelidade dos lugares e de certos elementos secundários. O Gunga Diner está lá, exatamente igual. O jornaleiro e o moleque lendo gibi que faz companhia para ele também. Fora coisas que só alucinados que leram a série várias vezes (alguém disse meu nome?) percebem: cartazes, propagandas, detalhes que tornam o filme uma grande experiência. Aliás, a produção foi tão bem-cuidada que as músicas de cada diferente época da história casam perfeitamente. A abertura com Bob Dylan não me deixa mentir. Realmente sensacional.


Sobre os atores, devo concordar com praticamente tudo que dizem por aí. Jack Earle Haley definitivamente É o Rorschach. Assustador, especialmente nas cenas na prisão. Billy Crudup (Dr. Manhattan) não decepciona, apesar de ter em mãos talvez o papel mais simples de todos. Já Jeffrey Dean Morgan faz um Comediante incrivelmente cínico. Pena que não apareceu mais.


Por outro lado, o cara do Ozymandias (Matthew Goode) é bem ruinzinho mesmo, enquanto que Patrick Wilson (Coruja) é exatamente igual ao personagem da revista, e nada mais. O “efeito Batman” que deram a ele só piorou tudo. E Malin Akerman parecia deslocada a maior parte do tempo no papel de Espectral – mas estava bem à vontade na sequência na nave do Coruja. Pelo menos isso.


Agora, vamos aos problemas. Pra começo de conversa, fiquei com a impressão que todo mundo tem super-força. Tipo, no início do filme o Comediante faz um rombo na parede com um SOCO! E ele não é o único: Coruja e Espectral tem sua cota de feitos super-humanos na luta no beco. Até Rorschach ganhou super-pulos. Estranho, muito estranho... Sem contar que todos os “Watchmen” parecem artistas marciais, com muitos golpes de caratê aqui e acolá.


Agora, esse final me incomoda mesmo. E nem é a “bomba Manhattan”, mas a forma como os personagens chegaram até lá. As coisas acontecem muito rapidamente no final, deixando algumas perguntas no ar (como a revolta de Laurie ao descobrir quem é seu verdadeiro pai. O ódio da personagem pelo Comediante foi praticamente suprimido, e quando aparece fica aquela impressão de que algo está fora do lugar).


Como se isso não bastasse, ainda temos a grande questão: uma das coisas que torna Watchmen tão importante para os quadrinhos é a narrativa de Alan Moore, tão bem trabalhada que permite várias interpretações possíveis dos eventos mostrados na história. Mas no filme tudo veio mastigadinho, pronto pro espectador comum. As implicações morais sobre os atos de Ozymandias para salvar o mundo ficam em segundo plano diante de algumas furadas de roteiro – dessas, uma das piores foi a morte de Rorschach (com direito ao Coruja gritando “NÃÃÃÃÃÃÃÃOOO” depois de Manhattan desintegrar o terror do submundo nova-iorquino).



Enfim, entre mortos e feridos, Zack Snyder cumpriu ao menos parcialmente sua missão. Tenho certeza de que, quando vir o filme outra vez (sim, pretendo fazê-lo) provavelmente terei uma ou duas coisas a acrescentar. Mas no final das contas, é um filme divertido. E apenas isso.

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Memórias de um Gibiota - III

06:08
Como eu já tinha dito na última parte, tinha deixado de ler gibis pra me conformar só em ler a Herói. Ficava relativamente bem-informado sobre o que rolava na Marvel e na DC, mas comprei bem pouca coisa durante esse período. Nesse momento eu começava a me tornar um otaku, como bom filhote da revista do Elvis (antes que alguém estranhe: Elvis era o nome do cara que respondia as cartas. Acabou virando meio que uma figura folclórica da revista). A salvação, contudo, veio de onde menos se esperava: minha mãe.

Isso mesmo! Lá pelos idos de 96, dona Rose me presenteou com uma assinatura das revistas Marvel. Um ano recebendo quadrinhos de super-heróis, ainda por cima no conforto de casa? Era impossível não voltar ao hobby. E eu estava de volta aos quadrinhos (o que eu disse sobre gibis de super-heróis na última parte?), em grande estilo, exceto por um pequeno detalhe:

Ô fase NEGRA que eu peguei. Simplesmente medonha. Pra começar, X-Men era escrito por Scott Lobdell, adorado por poucos e detestado por muitos (eu, inclusive); suas histórias cheias de drama até que eram legais, mas depois do terceiro mês de lenga-lenga não há quem agüente. O Aranha estava prestes a começar a infame Saga do Clone (pra quem achava que Um Dia a Mais foi a primeira vez que a Marvel tentou zerar o Aracnídeo, ledo engano) e Superaventuras Marvel, revista certa de encontrar boas histórias, foi pro saco. Definitivamente, não foi um retorno triunfal.

Contudo, mesmo com todos esses perrengues, me diverti muito lendo essas histórias. E isso se deve principalmente porque até então eu não havia desenvolvido uma consciência crítica; lia o que caísse na minha mão. O despertar da minha opinião própria sobre quadrinhos foi uma cortesia da Wizard.


Publicada pela Globo entre agosto de 96 e outubro de 97, a revista de onde peguei emprestado o título “Memórias de um Gibiota” era ótima. Notícias escritas por quem conhece sobre o que escreve, entrevistas, checklist e, claro, opiniões sobre fulano e cicrano. Vale destacar que a Globo publicava também umas revistas da Image, que muitas vezes eram descaradamente defendidas. Mas esses pormenores ficavam em segundo plano diante da avalanche de informações que ela trazia. Numa época em que internet era luxo para poucos, faltava pouco para atingir o nirvana. Pena que acabou rápido, e foi substituída por uma porcaria chamada Wizmania que hoje em dia sai pela Panini.

E essa ainda não é a melhor surpresa desses tempos. me reservaria uma grande descoberta: eu não estava só.

(Deixo aqui uma rápida explanação: hoje em dia pode ser muito fácil encontrar pessoas com os mesmos interesses que você, mas naquela época definitivamente não era. Tanto, que eu conheci outro leitor de quadrinhos com quase SETE anos de estrada. Imaginem o choque. Agora, voltemos ao meu relato.)

Quando estava no primeiro ano do ensino médio, eu folheava o exemplar daquele mês de X-Men (estava uma porcaria, pelo que me lembro) e um fulano chegou perto de mim pra perguntar se eu tinha revistas do Capitão América pra vender; isso não apenas despertou minha curiosidade como também meu lado comerciante, e assim estava feito meu primeiro contato com outro leitor, chamado Felipe. Isso rapidamente me levaria a conhecer outros da nossa estirpe, o que acabaria na formação do meu primeiro grupo de discussão de HQ. Por “discussão”, entenda saber quem comprou quê, qual a opinião sobre a revista tal e coisas assim.

Mas “todas as coisas iniciadas devem ter um fim”, e com esse grupo não foi diferente. Não tardou até que cada um traçasse seu próprio caminho, e terminamos por nos separar. Mas eu sabia que havia outros fãs de quadrinhos por aí, e não demoraria a encontrá-los. E os ocorridos durante minha empreitada ficam para uma próxima vez...
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Memórias de um Gibiota - II

19:34
Descobri os sebos em 1992, quando certa vez estava acompanhando minha mãe à feira. Infância regada em boa parte à televisão e gibi, sabe como é (claro, eu tinha amigos e brincava com eles. Eles apenas não compartilhavam meu gosto por quadrinhos). Tinha que encontrar algo que me deixasse mais à vontade. Então me deparei com pilhas e pilhas de gibis velhos. E eram velhos mesmo, com direito a páginas amareladas e tudo. Contudo, havia um diferencial: o preço, muito mais baixo que na banca.

Convém frisar que naquela época era muito difícil acompanhar uma revista mensal, devido à inflação. Eu começava a me interessar realmente pela leitura, e portanto precisava de alguma forma me manter lendo alguma coisa (imaginaram uma fornalha sendo alimentada dia após dia? É mais ou menos isso). Até porque nos sebos havia todo um universo a ser explorado. Na verdade, vários deles, se levarmos em consideração que não existiam apenas super-heróis.

Dessa forma, acabei conhecendo a fundo os Universos Marvel e DC, lendo um monte de revistas antigas. Foi assim, por exemplo, que eu li pela primeira vez coisas como a mega-saga da DC naquela década: Crise nas Infinitas Terras (e seu chatíssimo correspondente marveliano, Guerras Secretas), além de desenvolver uma grande admiração pelos “mais jovens heróis da DC”, os Novos Titãs (ou “os heróis que nunca crescem”. Aqui não é programa da Globo, mas você decide). Faltou muito pouco pra completar minha coleção dos Novos Titãs. Sem contar os outros trocentos títulos que eu encontrei, como Heróis da TV (sim, já houve uma revista em quadrinhos chamada assim), Heróis em Ação (idem), números antigos de A Espada Selvagem de Conan, esse tipo de coisa.

Virei freqüentador assíduo de sebos. Podia levar um monte de coisa nova, e bem baratinho. Tudo era perfeito. Aí meus pais me disseram que dali a poucos dias nos mudaríamos pra Campina Grande, na Paraíba. Ponto.

Tirando o costumeiro choque que se recebe numa situação dessas, segui minha vida até meados de 1994, quando estreou na extinta Rede Manchete um desenho novo. Não vi a estréia, mas um amigo me disse que era japonês. Era sobre cinco meninos, que defendiam uma deusa contra um Mestre do Mal. E eles usavam armaduras, inspiradas em constelações. Só comecei a acompanhar a partir do nono episódio, mas fui fisgado instantaneamente.

Quando Cavaleiros do Zodíaco estreou, foi um sucesso estrondoso. De verdade. Havia todo tipo de tranqueira à venda com os rostos de Seiya e cia. Foi quando surgiu uma revista (ou melhor, um fanzine que queria ser revista) falando sobre o desenho. Trazia novidades, pôsteres e o diabo a quatro. Se alguém não se lembra ou simplesmente não sabe, estou falando da Herói, que por sinal voltou tempos atrás (e a mais nova encarnação trazia, além de um orgulhoso “Ano 12” estampado na capa, uma matéria sobre Lost). Embora também falasse de outras séries, além de matérias e notícias sobre quadrinhos e cinema, o foco da revista realmente eram os Cavaleiros. Semanal, continha sempre as últimas novidades voltadas para um público nerd que começava a se formar.

O sucesso da Herói foi quase tão grande quanto o dos próprios Cavaleiros. Na verdade, se levarmos em consideração que se trata de uma revista (ou fanzine, você decide), ainda mais feita do jeito que era, foi muito maior. Tiragens inteiras esgotavam. Dificilmente havia alguém que assistia o desenho e não lia a revista – isso se não a comprasse.

É claro que ela tinha lá sua dose de pisadas. Como os Cavaleiros eram o desenho da moda, os caras não economizaram nas capas e matérias com eles. E muitas vezes ficavam sem assunto. Acabavam então recontando a mesma história, mas às vezes com uma diferença aqui, outra ali. Devo ter lido umas três matérias sobre CADA um dos especiais de cinema dos Cavaleiros. Isso quando não corriam para temas como “As Namoradas dos Cavaleiros” (me perdoem, mas essa até pareceu tema do programa Casos de Família). Não vou nem falar da diagramação, de matar muito estudante de vergonha – páginas de fundo amarelo com fonte verde ou laranja eram coisas comuns.

Apesar de tudo isso, a Herói era um tremendo sucesso. Pode até mesmo soar como pretensão ou heresia, mas a verdade é que dificilmente a cultura nerd estaria no lugar que se encontra hoje se não fosse por ela. Foi ela que em primeira mão divulgou séries que seriam prováveis substitutas dos Cavaleiros (e que acabaram sendo, no caso Shurato e Samurai Warriors). Só por conta disso podemos creditar a ela a explosão dos animes no Brasil, que ocorreria anos depois. Embora se trate de um fenômeno mundial, foi por conta de animes que saíram na Herói que o interesse pelos fansubbers cresceu, bem como sua consolidação. Isso só pra citar o filhote mais óbvio.

Foi lá também que grandes mudanças na Marvel e na DC foram antecipadas, como os crossovers Massacre e Zero Hora. A criação da Image Comics. Entrevistas exclusivas com escritores, roteiristas, atores e atrizes... Enfim, um informativo semanal com notícias fresquinhas do mundo nerd, num país em que praticamente tudo em termos de seriados e quadrinhos chegava com dois a quatro ANOS de atraso (é, tempos difíceis aqueles). E pensar que antes disso quem curtia seriados tinha que se virar com matérias pingadas nos cadernos culturais da vida. Era simplesmente impossível que não vendesse.

E eu era leitor da Herói, ávido por novidades. Mas aos poucos fui deixando os quadrinhos de lado. Sempre comprava a revista, mas não dava mais tanta atenção aos X-Men, ao Homem-Aranha e similares. Chegou um ponto em que eu, inconscientemente...deixei de ler histórias em quadrinhos.

Por muito pouco não me tornei um otaku, um fã de animes e mangás. Mas o fato é que as HQ’s simplesmente não me impressionavam mais, e eu gradativamente fui diminuindo maus gastos nessa área, até simplesmente não comprar um gibi sequer. Sabia o que estava acontecendo através da Herói, e só. Lia sobre quadrinhos, mas não lia os próprios quadrinhos. E assim permaneci por algum tempo.

Contudo, vale a pena lembrar que eram os anos 90, onde mortes eram comuns nos quadrinhos. Ressurreições, mais ainda. Para não falar de retornos. Então, era apenas uma questão de tempo até que eu também retornasse. Mas essa é uma história para outra ocasião...

(*) Esqueci de mencionar no último texto que o título “Memórias de um Gibiota” foi tirado de uma coluna do Jotapê, na primeira encarnação da Wizard, publicada pela Editora Globo entre 96-97. Como o foco é o mesmo, achei por bem utilizá-lo, mas esqueci de creditá-lo.
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Memórias de um Gibiota - I

19:24

Comecei a ler histórias em quadrinhos em 1991. Não me lembro do mês exato, mas eu considero que foi em maio. Olhando hoje, é bem interessante ver como as coisas mudaram de lá pra cá, uma época em que conseguir informação não era como ir à padaria da esquina. Se bem que eu não pretendo discutir pela bilionésima vez a revolução que a Internet provocou nas comunicações; deixo isso para os teóricos da informação. Acho que as pessoas que visitam esse blog querem falar de “cultura nerd”, e é o que vamos fazer.

Se bem me recordo, o primeiro quadrinho que eu tive contato foi uma revista do Super-Homem. Era uma capa com uma mão bem detonada segurando um menino, que por sua vez tinha uma mulher presa à sua perna, e o Super indo em auxílio deles. Não me chamou a atenção, tanto que o primeiro gibi que eu li foi O Melhor de Pica-Pau nº2. Pra descobrir Maurício de Sousa e a Disney foi rapidinho. Tive até uma minissérie com Mickey e companhia chamada O Mistério dos Signos, em que eles perseguiam as doze partes de um misterioso medalhão que prometia grandes tesouros a quem conseguisse reunir todas as partes (comentários, por favor!).

E assim fiquei por alguns meses, até que um amigo me mostrou dois gibis que eu não conhecia. Um deles era As Tartarugas Ninjas, que reconheci de imediato por causa do desenho da TV. O outro era muito estranho, tinha muitas páginas. Na capa, figuravam um homem metálico, um sujeito com garras nas costas das mãos fumando um charuto, uma negra com um moicano, uma outra mulher com roupas verdes e uma mecha branca no cabelo, um homem com pêlos azuis e orelhas pontudas e uma moça, provavelmente a mais nova, usava roupas e uma máscara azul.
Para quem ainda não matou a charada, trata-se dos pupilos do Professor Xavier. Era a edição 31, em que começava a saga Massacre de Mutantes (com direito a uma tarja na diagonal superior escrito “Aqui e só aqui”). Mas, antes que alguém pense que se trate dos X-Men, está ligeiramente enganado. Eles ainda não eram os “Équis-Men”, e sim (para desespero dos puristas) os “Xis-Men”. Lembra do que eu disse sobre informação lá no início do texto? Pois é, esse é um bom exemplo. Embora hoje soe ridículo, não havia NINGUÉM que lia quadrinhos nessa época e não chamava esse gibi assim. E como esse gibi saiu em maio de 1991, considero esse meu debut nas HQ’s.

(Por sinal, é bastante curiosa a linha de raciocínio que eu tinha naqueles tempos, do alto dos meus nove anos. Tipo, gibi era um negócio barato, mesmo com a inflação e tudo. E quando eu lia um gibi e achava ele legal, ia ver quais eram os anúncios que tinha nele. Via chamadas para Novos Titãs, Capitão América, DC 2000, Homem-Aranha, Liga da Justiça Internacional, Incrível Hulk, Superaventuras Marvel...Só pra citar alguns. Daí pensava “se esse gibi é bom, e está falando daquele, então aquele também é bom!”. E ia na banca e comprava. Olhando hoje, é impressionante.)
Quando terminava o mês, tinha quase tudo que tinha saído na banca, mas sempre com uma preferência pela Marvel (que, aliás, mantenho até hoje). Ainda lembro de muita coisa que eu li naquela época, além do Massacre de Mutantes, como a queda dos Vingadores (em Capitão América), o surgimento da L.E.G.I.A.O e do Lobo (em DC 2000, que era de longe a melhor revista da DC: tinha 160 páginas e trazia Rapina & Columba, Sr. Destino, Starman, Legião dos Super-Heróis e o Homem-Animal de Grant Morrison), o casamento do Homem-Aranha (no número 100 de sua revista. Brinde: um CALENDÁRIO de 1992!), a nova fase do Hulk como leão-de-chácara (após seu desaparecimento no número 100 de sua revista. Se gostaram do calendário, o prêmio dessa vez foi um AVISO DE PORTA. Cruzes...), entre outras coisas que eu não me lembro agora.

Como vocês podem ver, a maioria das grandes sagas se resolvia na revista do personagem envolvido, e só. Provavelmente é por isso que sou meio avesso a minisséries. Era rara a publicação de algo em outras revistas, o que era muito interessante pra quem não podia acompanhar todo um universo. Hoje, qualquer crossover de décima-segunda categoria é resolvido em outro título, que por sua vez continua num terceiro, e assim por diante. Coisas do capitalismo selvagem.

Contudo, meu instinto devorador de quadrinhos não duraria muito tempo. Eu tinha começado a ler quadrinhos com X-Men, e esperava encontrar coisas parecidas nas outras revistas. Não tardei a perceber que não gostava muito das tramas que ameaçavam a liberdade americana nas histórias do Capitão; nem das aventuras do Super-Homem, já que demorava para aparecer um desafio que realmente fizesse frente a ele. Devido a isso, eu comecei a colecionar muitas coisas, mas logo perdia o interesse.

Eis que, ainda em 91, sou pego de surpresa com uma nova revista. Seu nome? Marvel Force. Diferente das outras revistas da Marvel, essa saía pela Globo. E trazia na capa o Noturno e a Lince Negra, acompanhada por Rachel Summers e um homem vestido com a bandeira da Inglaterra e uma mulher que eu não conhecia. “Quem são eles?”, pensei. Intrigado, deixei de lado o Homem-Aranha do mês e fui saber quem eram aqueles dois. Era nada mais nada menos que o Excalibur de Claremont e Davis. A mulher era Meggan, a transmorfa. E o homem vestido com a bandeira da Inglaterra era o Capitão Bretanha (ou Britânia, você escolhe). Tinha ainda uma história de um tal Power Pack e de uma tal Força de Ataque Morituri (que tinha até slogan: “Aqueles que Estão Pra Morrer”), que eu também não conhecia até então. O gibi tinha quase o mesmo preço dos que saíam pela Abril, mas tinha menos páginas. Não tardei a deixá-lo de lado, com tantos outros que eu comecei a acompanhar, mas que perderam a graça.

Acabei indo atrás de novos horizontes. Voltei, então, a observar melhor os anúncios, que no passado me foram tão úteis. Na própria Marvel Force tinha umas revistas bem estranhas sendo anunciadas. Um tal de Moonshadow, que era quadrinho pra adulto. Tinha também um tal de Gilgamesh, mas desse eu nem fui atrás. E um tal de Sanoman, que anos depois eu descobri ser Sandman. Me chamou a atenção um Dreadstar: o Guerreiro das Estrelas, que acabei gostando, mas infelizmente o final nunca saiu no Brasil. Ainda na Globo, comecei a comprar o Fantasma, porque um amigo do meu pai tinha me dado umas edições e eu achei legal. Mas também ficou no meio do caminho.

Foi quando me deparei, ainda na Globo, com um novo tipo de quadrinho, diferente de tudo que já havia encontrado antes. Era dinâmico, com poucos diálogos e muita ação. Era pautado por um conteúdo bastante complexo (pelo menos pra mim, na época. Lembrem-se que eu tinha 11 anos). Foi nessa época que eu tive meu primeiro contato com um tipo de quadrinho que, anos depois, seria sinônimo de sucesso no Brasil. Foi quando conheci Akira.

Akira mistura paranormais, intriga governamental, guerras de gangues, conspirações, ataques terroristas, tudo isso aliado a um traço simplesmente maravilhoso, diferente de tudo lançado até então. Acompanhei as tramas de Kaneda, Tetsuo e cia. por quase sete meses. Cada edição era uma surpresa: o melhor amigo de Kaneda, Tetsuo, se voltou contra ele, liderando uma gangue rival e assassinando muitos de seus ex-companheiros. O próprio Kaneda, que antes queria a todo custo resolver as coisas da melhor maneira possível, estava agora decidido a matar Tetsuo. Enquanto isso, uma conspiração prosseguia sem que ninguém se desse conta, o que culminou no despertar de Akira, mais do que um paranormal: era uma força da natureza.

Infelizmente, como disse há pouco, só pude acompanhar a revista por pouco mais de sete meses; eram os tempos da “inflação galopante”, onde todo mês o preço da revista era remarcado, subindo mais e mais. Não tardou que eu acabasse tendo que abandonar os quadrinhos, e fiquei sem saber o desfecho de inúmeras histórias.

Mas, como uma típica história de super-herói, esse evento não podia terminar assim. Em 1992, quando não podia mais comprar as revistas na banca, descobri aqueles que, sem os quais, inúmeros colecionadores não teriam completado suas coleções: os sebos. Mas isso já é outra história.
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O que é RPG?

18:54
Provavelmente você já leu isso em algum lugar, mas como sempre temos que nos preocupar com os (eventuais) marinheiros de primeira viagem e, em se tratando de uma atividade que nem de longe é tão conhecida como o cinema ou as HQ’s (apesar de conseguir ser mais menosprezada que essa última), não tem jeito: o primeiro post dessa categoria tinha que explicar do que se trata. Isso posto, vamos em frente.

RPG vem de Role Playing Game, que em português seria algo como Jogo de Interpretação de Personagens. Nessa atividade (que graças a Deus não é chamada aqui de JIP), os jogadores se dispõem a representar papéis (os personagens) numa história narrada por outro jogador, comumente chamado de Mestre (mas que dependendo do jogo pode ser chamado de Narrador, Anfitrião, Observador… o nome muda, mas a finalidade é a mesma. Igual aos reality shows, saca?). Esse Mestre conta a história onde os personagens dos jogadores se encontram, e como os atos deles interferem no enredo. Uma boa definição para RPG seria algo como um “teatro de improviso”.

Contudo, o assim chamado Narrador tem poderes absolutos sobre todos os eventos do enredo – e isso em nada atrapalha o ritmo de jogo, porque o principal objetivo do RPG não é vencer, mas sim contar histórias, onde todos possam se divertir. Desse modo, a palavra dele (dentro do jogo, que fique bem claro) é lei. Mas de modo a tornar as coisas menos arbitrárias para o Mestre (e acrescentar um elemento emocionante à coisa), quase sempre que alguém tenta fazer alguma coisa, usam-se dados das mais variadas formas que, dependendo do resultado, permitem a você ter sucesso ou não no que queria fazer.

Essa é a parte onde eu falaria de alguns jogos que fazem sucesso, mas por motivos de força maior (cansaço físico e mental) vou ficar só com dois dos mais jogados. Se alguém quiser, posso falar sobre outros RPGs outro dia.

Dungeons & Dragons (ou simplesmente D&D): o RPG mais jogado no mundo, nem mais nem menos. D&D evoca a fantasia medieval, com elfos, dragões, itens mágicos e vários elementos diretamente saídos de um livro de J.R.R Tolkien. Apesar de possuir um “cenário padrão”, uma das coisas que fez o sucesso de D&D foi justamente a grande variedade de cenários de campanha (como são chamados os mundos onde se passam as aventuras de RPG), indo do heroísmo de Dragonlance ao terror de Ravelnloft. Há pouco tempo uma nova edição foi lançada, e ela em breve chegará ao Brasil. Um clássico absoluto do gênero.


World of Darkness: na verdade, o World of Darkness (no Brasil, Mundo das Trevas) não é apenas um, e sim vários RPGs que compartilham o mesmo cenário moderno punk-gótico, com cada enfocando um determinado tipo de criatura. Você não precisa ler todos para jogar, mas quanto mais conhecer, melhor compreenderá como funcionam as coisas. Era composto por vários livros, sendo que destes Vampiro: a Máscara sempre foi de longe o mais popular, sendo durante alguns anos o RPG mais jogado do Brasil. Outros títulos de destaque eram Lobisomem: o Apocalipse e Mago: a Ascensão. Há alguns anos o cenário passou por uma grande reformulação, e todos os jogos foram relançados com novas propostas. Esses jogos estão chegando agora no Brasil e estão conquistando mais e mais adeptos, apesar que suas contrapartes “descontinuadas” ainda são muito jogadas por aqui.

Bom, acho que é isso.

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Apresentação

18:52

Olá, me chamo Cleriston, e nesse espaço vou escrever sobre diversos temas, como HQ, cinema, RPG e idéias em geral.

Cabe aqui uma explicação: batizei o blog de “tribos & tributos” porque, além de ser um trocadilho difícil de esquecer (propaganda é a arma do negócio, oras), define bem a idéia que eu quero trabalhar: um lugar onde eu possa abordar vários temas, com diferentes públicos-alvo (tribos) e também dar espaço para coisas que gosto (tributos).

Então, aqui estamos.

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